Parasita obrigatório.

Como um parasita dentro de mim, ele vive. Se alimentando de todas as minhas forças, minha seiva elaborada, presente em cada pensamento. Não estou sozinha quando estou só. Carrego-o comigo. Alimento-o como um filho, lhe dou razão para existir. Se não fosse por mim, não viveria. Toma conta do meu corpo e põe palavras na minha boca. Põe palavras nos meus ouvidos, só ouço aquilo que me permite. E anseia. Sonha com o dia em que poderá se ver livre de mim. Vive em mim, mas não simpatiza comigo. O sentimento é recíproco, também não lhe tenho amor. Tampouco te quero em mim. Sinto a força que fazes para escapar, te sinto saindo aos poucos por todos os poros do meu corpo. Queremos viver um sem o outro mas não existimos, se separados.

E assim eu sigo. Eu e o meu medo de estimação.

O dia fez-se noite, fez-se noite o dia, então.

Não dormir até que compensa quando um pássaro começa, baixinho, a cantar. Bom dia, sol, pássaros, canto, dia, quarta-feira. Boa noite, luz da ilha, estrelas, guardas-noturnos. Estranho quando nos dedicamos tanto tempo pra alguma coisa e, no fim, parece que a gente nem tentou. Ler e reler milhões de vezes alguma coisa e ter a impressão de que ela ainda tá circulando pelo corpo, procurando o caminho pro cérebro – se perdeu pelos pulmões, pelo baço, pelo timo… E é assim, né? As coisas se perdem, mesmo. Algumas se atrasam, algumas nunca chegam onde deveriam.. Se perdem, acabam, mudam. Se esquecem, aquecem, acontecem, prevalecem, entorpecem.

Acordar não só fisicamente. Mas dá pra dormir, desse jeito? Dá pra desligar? Sossegar? Esquecer? Desligar? Dá? O dia nasce, o dia acaba, a noite vem, a noite vai. Sempre diferente e sempre a mesma coisa. Situações diferentes, as mesmas coisas. Pessoas diferentes, as mesmas coisas. Dias diferentes, as mesmas coisas. O mesmo pássaro, cantos diferentes. A mesma pessoa, sentimentos diferentes. O mesmo céu, nuvens diferentes. O mesmo mar, ondas diferentes. Apaga e acende a mesma ilha. Fecha e abre a mesma porta. Limpa o mesmo apartamento, lava a mesma louça suja de coisas diferentes. Verbo, substantivo, j, g. longe, longo. lonjão, longão. Um longo caminho pra ir tão longe te ver. Bom dia, dia. Bom dia pra quem vai, bom dia pra quem fica. Eu fico. Eu sempre fico.

0802

Sinto falta de todas as tuas coisas que não conheci: teu lado ruim e os dias tristes, das distâncias e meias palavras. Não sinto falta das coisas belas: os sorrisos e olhares, pois trago-os comigo. Tua voz que ainda ecoa em meus ouvidos, depois de tanto tempo, não me deixa te esquecer. Como foste embora, se continuas aqui comigo? Se continuas em mim? Uma cópia do que foste te pedindo pra voltar a ser. Lembro ainda de todas as tardes na rua, teu sorriso na chuva. Mas hoje o céu chora. Te entrego essa carta onde sei que sempre descansarás e, de novo, me despeço em silêncio. 

Pra quem.

Depois de todos os anos, e os enganos, abrimos mão. Depois de tanta luta por nada, de tanta paixão forjada.. Depois dos nossos desencontros, nos permitimos ir embora para nunca mais voltar. Nos perdemos em meio a tudo aquilo que jurávamos ser. Tudo o que construímos permanecerá intacto, como prova de que ali estivemos, ruínas de um amor extinto. Os caminhos que percorremos continuarão existindo mesmo depois que nossos pés forem embora. Tudo ficará, exceto nós – os únicos habitantes de uma civilização perdida. Agora em busca de um novo mundo, algo que substitua o que não foi suficiente, que nos leve para longe do nosso lugar-em-comum.

Centoesessentaeoito.

A cada vez que te vejo partir, espero que voltes. Espero que não. Quando vais embora fico mais livre de ti e mais presa a tua saudade, tua ausência. Me apego cada vez mais ao não te ter, à expectativa. Se não voltas, te espero chegar; se voltas, te espero ir embora. Te espero, mas torço para que não chegues.

Espera!

Aqui onde os dias passaram, os ventos passaram, as chuvas passaram. Aqui onde os carinhos passaram, os amores passaram, os pudores passaram. Aqui onde os sabores passaram, os sussurros passaram, os afagos passaram. Aqui onde os filmes passaram, os jantares passaram, as noites passaram.

Aqui onde todos passaram, só eu não passei.

C

    Quando achei que nada mais havia, que tu eras a única saída pra tudo. Quando achei que só em ti poderia me achar, que nem adiantaria tentar. Todas as minhas convicções bem fundamentadas e estabelecidas se desmancharam. Num piscar de olhos, num abrir dos braços e já não estávas mais lá. Sumiste com tudo aquilo que havia de teu em mim. E no pré-fim-do-mundo um outro se iniciou.
    Como tudo mais na vida que nunca acaba e sempre recomeça em novos lugares, recomeçaste. Recomeçaste e já não és mais tu, já não mais existe, já não vejo mais uma luz no final do teu túnel.